Saturday, 30 June 2012




Cortei os pelos, cabelos
cresci as unhas, coloquei sapatos
respeitei horários
acatei conselhos, passei na prova
me podei, encolhi.
me espremi sem exprimir.
de tão pequena, fiquei
menor que o amor.
escolhi o amor
não caber em mim.



Monday, 25 June 2012


 
como coceira dentro do ouvido
vinha, passava, ficava, voltava
o médico deu tuas explicações
daquelas que a gente ouve,
finge que entende e vai embora
do ouvido foi descendo pelo pescoço
era tipo alergia, perfume não usava
no cotovelo só com banho passava
barriga, quadris, joelhos
tudo sentia o que ela escondia
do calcanhar pra ponta do dedão do pé
tirava o sapato na rua, no trabalho
no restaurante e corria
nunca vi essa menina entrar
devagar aqui no prédio
ela sobe aquelas escadas
correndo feito gente louca
não sei do que tanto corre
é da coceira, seu Oliveira
ela corre pra passar a alergia
coceira! nunca vi coisa mais esquisita
essa menina não corre da alergia
ela corre é do amor
que besteira, como sabe
que é de amor que corre a menina?
sei não, mas a gente logo vê
quem escolheu ficar.



Thursday, 21 June 2012



O amor não resolve nada. O amor é uma coisa pessoal, e alimenta-se do respeito mútuo. Mas isto não transcende o colectivo. Levamos já dois mil anos dizendo-nos isso de amar-nos uns aos outros. E serviu de alguma coisa? Poderíamos mudá-lo por respeitar-nos uns aos outros, para ver se assim tem mais eficácia. Porque o amor não é suficiente.
José Saramago


Friday, 15 June 2012



Às vezes escrevo como quem lê livros de auto-ajuda.
Não suporto livros de auto-ajuda.
Não há ajuda que venha escrita assim.
Não há ajuda. Não há ajuda fora de mim.



Wednesday, 13 June 2012



feito distância
que tempo algum
preenche

sempre guardado
no buraco do muro
feito a socos

naquela rua de fugir
para não ouvir o grito
de homens que
só bebem a cachaça

sem perceber em
qual abismo jogam
o olhar que brilha
pro sorriso escondido



Wednesday, 6 June 2012



Ele me disse
da cruz que
carrega
disse cada
um carregue
a sua
e a dele
era feita de
isopor.
isopor, por deus!
eu já nem
sei em que
esquina, quarto
beco, padaria
eu deixei a minha.


Monday, 4 June 2012



Do alto do prédio outros
tantos nos mostram
o apagar das luzes
dos quartos de dormir.

Outras, essas coloridas,
piscam rápido quando
ficar no sofá era mais fácil
que andar até a cama.

Desse alto sinto, vindo
de teus lábios, um sopro
que faz correr meu cabelo.

Sigo com o olhar por todo
teu rosto claro e invento
uma palavra muda para
caber esse sentimento.