Wednesday, 18 July 2012



Era como uma sala de alguns daqueles sujeitos
que gostam muito de papel.
Pilhas e pilhas deles. Amassados, soltos,
em pastas. Uns rasgados e outros tantos bem arquivados.
Tinha uma pilha daqueles que ele precisava ainda assinar,
os que iria ler mais uma vez e aqueles que
já nem lembrava de ter guardado.
Uns tinham um peso por cima. Fosse o que fosse,
de lá não sairiam. E tinha os que estavam
bem na sua frente. Assuntos que precisavam
de urgência ou que ele gostava de reler no final do dia.
Em alguma hora da tarde, a mulher, que todo
sujeito que gosta muito de papel tem, apareceu.
Ela, que sempre atende o telefone e diz que
o sujeito anda muito ocupado, provavelmente com
tuas pilhas de papel, entrou na sala de repente.
Era verão e num dia quente, não há corpo que aguente.
Foi logo falando que um outro sujeito, que não
gosta de papel tanto assim, havia ligado furioso
querendo saber quando entregaria aquela papelada
que estava devendo. E, enquanto o sujeito pensava
na resposta, ela foi caminhando em direção a janela,
que vivia trancada e a abriu em uma só paulada.
Era vento vindo de todo canto da janela.
Vento que derruba e derrubou todas aquelas folhas, pastas,
anotações, dívidas e lembretes que estavam em cima da mesa.
Foi um vento só e ficou tudo suspenso.
O sujeito fechou os olhos pra não ver.
O vento passou por teu corpo, fez voar os cabelos
Ele ouviu o cair das folhas, o embaralhar das folhas,
ouviu o coração bater forte como nunca antes ouvira.
Era tudo o que o sujeito tinha, era o próprio sujeito no chão.